"O que eu posso dizer, em primeiro lugar, é que nesses já mais de dez anos nos quais enveredei pela pesquisa sobre o documental e o autobiográfico no teatro, eu nunca quis fazer uma peça sobre a “minha vida”. O problema foi que, quando isso se deu, é que não havia como não fazer. São trabalhos que nascem da pressão das marcas, de sua violência, sua urgência, a necessidade de criar um novo corpo para responder à essas marcas, marcas que me obrigaram a pensar, parafraseando Suely Rolnik. Fazer uma “peça de teatro” é, claro, sempre uma escolha. Mas lidar com os conteúdos psíquicos que se manifestaram nesses processos era uma exigência que, do contrário, seu recalque ou foraclusão só poderiam ter por consequência a expressão em sua via sintomática. Escolhi a expressão artística. E, como a inteligência vem depois, como dizia Proust, o que se segue a partir do confronto com as marcas, do deixar-me estranhar por elas, é uma afluência entre arte e vida, teoria e estética, indissociáveis."

Leite, Janaina. Do real documental ao real obsceno, 2020.

(...) não se trata apenas de fazer um depoimento pessoal do modo mais sincero possível, como acontece em outras tentativas de performance autobiográfica. Janaína recorre à teatralidade ostensiva, entendida como uso premeditado da mediação e de aparatos cênicos que funcionam como espécies de notas de rodapé destinadas a viabilizar o distanciamento do espectador e, ao mesmo tempo, desestabilizá-lo com irrupções de real e risco performativo. Materiais artísticos, filosóficos, literários e científicos convivem para potencializar a experiência, filiando a criadora à corrente artística que compreende a arte como forma de pesquisa. Trata-se de uma trajetória de vida, mas também de reflexão. Ambas recuperadas nas recordações, quem sabe verdadeiras, reorganizadas e tornadas ficção no sentido defendido por Jacques Rancière, para quem a ficção não é a criação de um mundo imagi- nário oposto ao real, mas “um trabalho que realiza dissensos, que muda os modos de apresentação sensível e as formas de enunciação [...] construindo relações novas entre a aparência e a realidade, o singular e o comum, o visível e sua significação” (RANCIÈRE, 2014, p. 64)3. 

Fernandes, S. (2020). Atos de profanação. In:  Sala Preta, 20(1), 185-197.

MITsp - Pesquisadora em Foco - Janaina Leite

GEBARA, Ivone; IACONELLI, Vera; MACHADO, Laís; PIAZENTINI VIEIRA, Priscila. O Corpo da Mulher, Suas Representações e a Coragem da verdade. (mesa) Em Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, Teatro Cacilda Becker, 13/03/2020. 

Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=fpdTFu905rs 

 

ROBERT MORAES, Eliane. Diálogos transversais. (mesa) Em MITsp - Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, Teatro Cacilda Becker, 12/03/2020. 

Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=tNdJ8E27C4M 

 

Desmontagem de "Stabat Mater". Em MITsp - Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, 2020.  

Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=X4iPkY9C2nc

 

Janaina Leite com Stabat Mater no programa Arte 1 em Movimento , entrevista por Carolina Ferreira. 

Disponível em:https://www.youtube.com/watch?v=k52bGqM-XTc&t=73s